Grande Cimeira

Mar tem potencial mas exige foco nos resultados

Sofia Cristino  |  2023-01-07


Ministro do Mar admite metas "ambiciosas". Filipe Duarte Nunes considera que podemos ser autossustentáveis no setor energético.

O ministro da Economia e do Mar, António Costa Silva, admitiu, na sexta-feira, que algumas das metas definidas pelo Governo até 2030 para desenvolver o setor da "Economia Azul" são "ambiciosas". "Poderemos atingir alguns objetivos importantes, mas há muitas dificuldades no nosso país, que depende de oito a 15 entidades", reconheceu. No debate promovido pelo Global Media Group e pela Fundação INATEL, o professor universitário Filipe Duarte Nunes destacou que temos capacidade para sermos autónomos na produção de energia.

Portugal tem 252 milhões de euros para alavancar a economia do mar, área estratégica que tem "muito potencial", defendem especialistas e governantes, mas os desafios são enormes. O ministro da Economia e do Mar referiu que "a meta de produção de dez gigawatts de eletricidade a partir de energia eólica offshore até 2030 é um objetivo extremamente ambicioso".

"Temos de trabalhar para isso, não vai ser fácil. Já temos zonas identificadas e estamos a receber contactos de muitas companhias, sobretudo internacionais, para a desenvolver", avançou. António Costa Silva não tem dúvidas de que "podemos ser um dos grandes polos de produção e exportação de energias renováveis" com "energia eólica e fotovoltaica de topo". Contudo, alertou, há "problemas centrais do país, de gestão, organização e foco nos resultados".
O presidente do Conselho Nacional de Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, Filipe Duarte Nunes, acredita mesmo que podemos ser autossustentáveis. "Não tenho dúvidas nenhumas de que temos condições para termos independência energética, mas é necessário termos um "backup", que pode ser o hidrogénio. Sem isso, temos de recorrer às nossas centrais a gás natural. Bem gerido e planeado, é perfeitamente possível até exportarmos energia", considerou.

O professor universitário salientou ainda a importância do setor empresarial no desenvolvimento desta atividade económica. "Para termos uma economia robusta, temos de ter outra cultura de empreendedorismo, não podemos olhar para as empresas desconfiados. Sem as valorizarmos, não vamos passar da cepa torta".

"Universidade no Atlântico"

Para os dois oradores, que falaram na sexta-feira, em Setúbal, no terceiro de seis "Diálogos de Sustentabilidade", Portugal tem bons investigadores e produção de conhecimento científico que é preciso aproveitar. O ministro do Mar lembrou que, em abril do ano passado, foi criada uma "task force para o mar" que está a trabalhar com centros meteorológicos e as universidades. "Precisamos de construir uma grande universidade no Atlântico, uma rede que se debruce sobre os problemas do oceano. Tem de ser preservado e defendido, mas para isso precisamos de o conhecer", considerou.

Já há vários projetos em curso para cumprir este objetivo, como um internacional, ao qual Portugal aderiu há poucas semanas, para colocar boias de sensores no oceano. "Descem e sobem até 2000 metros de profundidade e dão informação sobre o oceano, como pressão, temperatura, níveis de acidificação e salinidade", explicou Costa Silva. Com estes dados é possível "modelar o ciclo de desenvolvimento de cardumes e pescar nas alturas certas", como já faz a Noruega, tornando o setor mais sustentável.

O transporte marítimo, para o qual também se prevê uma grande revolução, foi outro dos assuntos em destaque. O especialista Filipe Duarte Nunes disse que, nos próximos anos, "uma das urgências é mudarmos combustíveis dos nossos navios à escala mundial". "Os oceanos têm capacidade de absorver 30% do CO2 em excesso", informou.
O ministro do Mar destacou o "grande projeto" de hidrogénio que está a desenvolver-se em Sines. "Temos 20 mil milhões de euros de investimento bloqueado para a logística e infraestruturas e para os cabos submarinos que é outra área de desenvolvimento que pode ajudar na parte dos sensores para conhecer os oceanos".

Observatório do Mar dos Açores premiado pela Fundação INATEL

O presidente da Fundação INATEL, Francisco Madelino, homenageou o Observatório do Mar dos Açores. "Decidimos premiar uma entidade que tem sido relevante no estudo, promoção e ligação ao mundo científico e demonstração do papel do mar", disse Madelino, que ofereceu um quadro à presidente do Observatório do Mar, Carla Dâmaso. "É sempre bom ver reconhecido o trabalho que é feito. Estamos sediados no Faial, uma ilha com 15 mil habitantes. Fiquei muito orgulhosa e surpreendida quando soube que íamos ser distinguidos nesta conferência", agradeceu Carla Dâmaso.


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